É o meu último dia em África, depois de alguns meses sem muita direcção na minha errância. Ainda bem. Regresso ao Cabo da Boa Esperança e tudo neste beco sem saída do mundo, aberto à fúria de dois oceanos desencontrados, pede liberdade, devaneio, improvisação. É o meu último dia em África e sinto-me feliz e aluado — um momento passageiro de tontura, breve e desconcertante como devem ser todos os estados de felicidade. Quem sabe? Se eu pertencesse a estes territórios que já se confundem com a linha do horizonte tudo isto seria banal e óbvio. Mas não: estou de passagem.
Tento aproximar-me da ponta da falésia. Não posso, o vento é demasiado forte, sopra na direcção errada, atira contra o infinito. É esta a falésia que viu passar o primeiro europeu em busca das Índias, e o mesmo deslumbramento atemorizado continua a tomar conta dos que a procuram com o olhar, tantos séculos depois. Tudo é permitido à imaginação, aqui: monstros marinhos, animais fantásticos, tribos antropófagas, promontórios indomáveis, maldições melodramáticas, tempestades desumanas, desertos sem vida. Este é um dos lugares mais sedutores e surpreendentes do planeta, a fantasia humana não teria conseguido criar um ambiente tão misterioso e variado. Algo mais — um ser superior, um deus desconhecido, uma força sobrenatural, um deles pôs mãos nas baías, montanhas, ondas, perturbações atmosféricas, vendavais uivantes, plantas e animais que festejam o fim de África, o princípio da imaginação.
Non Plus Ultra é agora aqui. A inscrição que, segunda a lenda, os antigos habitantes do Mediterrâneo gravaram nas colunas de Hércules a assinalar o fim da Terra conhecida, viajou nas naus portuguesas de norte para o sul do continente e não dobrou o cabo com elas. Não mais além aqui. Conhecida hoje, a Terra mantém no entanto lugares assim: pontos de retorno, lugares que são limites, estradas que só regressam, não continuam, atmosferas que nos mantêm ligados a perplexidades ancestrais. Amanhã, em Portugal ou qualquer outra coordenada do globo, tudo será outra vez mais racional, certo, seguro, explicado, cinzento.
Gonçalo Cadilhe